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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Hitler e a Pintura - Parte III

por Raphael Favila

Em 1983, August Priesack , uma autoridade em arte de Munique, e o colecionador americano Billy F.Price, publicaram em conjunto um catálogo reunindo pinturas de Hitler . “Muitas obras atribuídas a Hitler são falsificações produzidas por um artista alemão, chamado Konrad Kujau”, conta Price.

Dois esboços e vinte e um quadros feitos por Hitler foram a leilão em setembro de 2006. O total arrecadado chegou próximo aos 120 mil dólares. A coleção foi descoberta em 1986, em uma fazenda belga, e foi pintada por Hitler sessenta anos antes.

Algumas obras de Hitler




















Fontes:
“A ilha dos mortos”
“El arte de La pintura”
Jornal mexicano “El Universal”
Robert Musil
Franz Werfel
Hermann Broch
Ian Kershaw

Hitler e a Pintura - Parte II

por Raphael Favila

O que teria sido de Hitler se a Academia de Viena o tivesse aceitado como aluno? O que teria sido o século XX se Hitler tivesse sido pintor e não político? A Segunda Guerra Mundial teria acontecido?

O livro "O Arquivo de Hitler" mostra facetas curiosas do ditador nazista, uma delas a fase artística na juventude de Adolf. A obra reúne 265 verbetes, escritos pelo ex-combatente britânico Patrick Delaforce, que esteve na Guarda Oficial de Churchill durante a Segunda Guerra Mundial e após deixar o exército tornou-se escritor especialista em assuntos históricos e de guerra. Em uma das passagens do livro, o escritor lembra-se dos anos em que Hitler formou parceria nos negócios com o austríaco Reinhold Hanisch.
Delaforce conta que Reinhold Hanisch era um vagabundo que se tornou o único amigo de Hitler na enfermaria de caridade em Meidling, um subúrbio de Viena . Hanisch descreveu o jovem Adolf com uma juba espessa de barba sobre o queixo e que se vestia com uma sobrecasaca e um chapéu preto e gorduroso, a partir do qual seu cabelo pendia sobre a gola do casaco. Dormia em abrigos noturnos , vivendo de pão e sopa, onde conheceu o futuro Führer. Debatiam política, muitas vezes entrando em discussões acaloradas . Hanisch convenceu Hitler a se mudar para um albergue para homens, onde permaneceram por um período de sete meses, entre 1909 e 1910; dividam o teto com trabalhadores de colarinho azul e branco e alguns artesãos, mas também com os destroços da sociedade. Apostadores, agiotas, mendigos, empresários falidos e oficiais afastados do Exército . Hanisch registrou-se com o falso nome de Fritz Walter . Ele convenceu o jovem pintor apático a formar parceria em uma base de divisão do lucro em cinquenta por cento para cada um. Hitler pintava desenhos e aquarelas, à taxa de um por dia, os quais
Hanisch vendia nas ruas e bares de Viena. Os altos e baixos nas vendas impossibilitava os dois de comprarem boas roupas, mas estes não passavam mais frio nem fome.
Tinham amizade com muitos judeus, entre eles um negociante de arte húngaro, Josef Neumann, que não só comprou pinturas de Hitler, mas também o apresentou a três outros concessionários.
Hitler também copiava cartões postais e litografias de cenas vienenses. Produziu um cartaz anunciando um tônico capilar, outro para uma cama de penas e outro para
um pó antitranspirante,  vendido sob o nome de marca "Teddy” . Outro cartaz foi para um sabonete. O pôster mostrava uma montanha de barras de sabão em frente a majestosa Catedral St. Sthephan .

Hitler romperia com Hanisch tempos mais tarde, acusando-o de vender uma de suas pinturas (um retrato do Parlamento de Viena) e não dividir o lucro. Hanisch negou essa acusação. Em 04 de agosto de 1910, o austríaco foi denunciado por falsidade ideológica por outro residente do dormitório, Siegfried Löffner, que atuava agora como o novo vendedor das obras de Hitler. A polícia de Viena descobriu que Hanisch estava registrado sob falso nome, o que o levou a sete dias de prisão. A cadeia tornou-se recorrente para o ex- companheiro de Hitler. Hanisch nutria uma certa obsessão por Adolf. Provavelmente foi dele a denúncia anônima à polícia local de que Hitler usava falsamente o título de pintor acadêmico. Ainda, produziu aquarelas que vendeu como supostas obras de Hitler. Para encobrir a fraude, tinha ajuda do amigo Karl Leidenroth para autenticar as falsificações. Como foi um dos poucos a conviver em Viena na juventude com o então agora chanceler Adolf Hitler, o austríaco se tornou peça importante de relatos para a primeira biografia do futuro Führer, onde foi bem remunerado pelos depoimentos ao escritor antinazista. Aproveitou a fase de testemunha, sempre recorrido para entrevistas a jornais e revistas nacionais e internacionais.
Hanisch contestava a afirmação de Hitler que dizia, em Mein Kampf, ganhar a vida em Viena por um tempo como um trabalhador:. "Eu nunca o vi fazer o trabalho duro, mas soube que ele trabalhou como operário de construção. Empreiteiros geralmente empregam somente pessoas fortes". No livro, A Mente de Adolf Hitler , Hanisch relata: "Ele nunca foi um trabalhador ardente, foi incapaz de se levantar de manhã, tinha dificuldade em começar, e parecia estar sofrendo de uma paralisia da vontade."

Após romper com Hanisch, Hitler logo faz amizade com Josef Greiner. Compartilhavam interesses em pintura, música e ocultismo. As técnicas de pintura de Hitler haviam melhorado, sem nenhum treinamento formal de arte. Ele tinha uma habilidade natural e era fluente em estudos a lápis e carvão, excelente colorista  com óleos em paisagem. Era a sua rede de negociantes de arte, composta por judeus, que comprava a maior parte de seu trabalho. Recebeu parte da herança do seu pai, aos 24 anos,  e mudou-se de Viena para Munique. Ficou com a família Popp e continuou a pintar, mas as vendas foram bem menos sucedidas sem os marchands judeus. Rapidamente une-se ao exército da Baviera para servir durante a Primeira Guerra Mundial.

Hitler se tornou o desenhista do jornal do exército. Depois de pintar flores e de fazer “cópias arquitetônicas quase perfeitas”, o jovem artista passa a criar pinturas “mais abstratas e toscas, menos detalhadas do que as anteriores — usando como tema principal o campo de batalha, que eram cidades devastadas”.

Ferido, com uma lesão numa perna, Hitler ficou acamado num hospital. “Quando eu estava confinado à cama, me ocorreu a ideia de que deveria libertar a Alemanha”, contou. Ao receber alta, voltou para Munique e se uniu ao Partido Operário Alemão, que depois se tornou o Partido Nacional Socia¬lis-ta dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido como Partido Nazista. Começava assim o lado político de Adolf que iria transformá-lo em um dos personagens mais marcantes da História.

Hitler e a Pintura - Parte I

por Raphael Favila

A pintura retrata um soldado alemão ferido, a olhar para o vazio, em uma trincheira na antiga União Soviética.  Conhecido por ser o quadro favorito de Hitler em seus últimos meses de vida, Lembrança de Stalingrado (originalmente Erinnerung an Stalingrad) foi pintado pelo alemão Franz Eichhorst em 1943. A obra, que estava desaparecida desde 1945 e chegou a ser considerada perdida para sempre, teve que ser incluída na lista que compila mais de 4.300 obras de arte pertencentes ao acervo pessoal do Führer. Foi encontrada recentemente junto a outras seis pinturas no inicio de 2012 em um mosteiro a cinquenta quilômetros de Praga. As sete obras, adquiridas por Hitler na Alemanha em 1942 e 1943, foram transferidas à República Checa durante a ocupação nazista para protegê-las de possíveis ataques aéreos dos aliados. Jiri Kuchar, um historiador que procurou as obras de arte de Hitler em vários mosteiros do país durante cinco anos, afirmou que os quadros encontrados poderiam chegar ao valor total de dois milhões de euros.
O título de quadro favorito de Hitler tem sido disputado por várias obras. Durante muito tempo, Hitler teria tido uma especial obsessão por "A Ilha dos Mortos", do pintor suiço Arnold Böcklin, mas também adorava "Alegoria da Pintura", do holandês  Johannes Vermeer, que foi vendido ao ditador alemão em 1940 por Jaromir Czernin, casado com uma mulher judía. O quadro tinha lugar de destaque no museu pessoal de Hitler e hoje está pendurado no Museu de História da Arte de Viena, na Áustria. O país recusa-se a devolver o quadro à Alemanha.

O pintor Hitler

A paixão de Adolf Hitler pela pintura vem da infância. Poucos sabem, mas o personagem que marcou a História mundial como um ditador psicopata e sanguinário, não só adquiriu milhares de obras de arte como também pintou uma dezena delas. O jornal mexicano “El Universal” nota que o Führer cruel “foi um pintor de imagens que transmitiam paz”. O jornal não diz “transmitem”, prefere o verbo no passado, pois, hoje, os quadros são “contaminados” pela má fama do brutal Hitler. “São telas pintadas com suaves tons pastéis, com pintura de aquarela, marcando linhas suaves e relaxadas. Ainda que não pareçam, são obras do jovem Adolf.

O pai de Adolf não queria que o filho fosse pintor. “Artista, não, jamais enquanto eu for vivo!”, disse Alois Hitler. Quando o pai morreu, em 1903, o garoto de 14 anos pôde seguir sua vocação artística. Quatro anos mais tarde morre sua mãe, Klara, e o jovem, agora com 19 anos e órfão, tem de se virar sozinho. Em busca de um futuro melhor, com o objetivo de se consagrar como pintor, muda-se para Viena, capital da Áustria. A cidade fervia intelectualmente à época, e era residência do psicanalista Sigmund Freud e de escritores como Robert Musil, Franz Werfel e Hermann Broch.

 Tentou entrar na Academia de Belas Artes de Viena por duas vezes, mas não conseguiu. A Instituição recomendou-lhe que buscasse seguir arquitetura ao invés de pintura.
“Enquanto esperava ser aceito” pela Academia, “Hitler desenvolveu seu ódio antissemita após a leitura dos discursos de Karl Lueger, defensor da pureza ariana. Esse discurso também refletiu nas pinturas, que, contraditoriamente, Hitler vendia sobretudo para judeus”, os que mais “se interessavam por elas”, relata o jornalista Ángeles Pino.

 Ian Kershaw, historiador e professor inglês, e uma das principais autoridades acadêmicas sobre a vida do Führer, nos conta em seu livro “Hitler, 1889-1936”:  “Aos 18 anos, Hitler foi rechaçado pela famosa instituição. Eis o veredicto: Exame de desenho insatisfatório. Poucas aptidões.” Ele foi “desqualificado em duas ocasiões, - em 1907 e 1908 - aos 18 e aos 19 anos.”

Richard Westwood-Brookes, da Mullocks Leilões (que leiloou em 2010 algumas unidades de quadros pintados por Hitler) deu a sua opinião ao Telegraph sobre o talento de Adolf como pintor:

“Ele simplesmente não era bom o suficiente. Principalmente quando desenhava pessoas, a perspectiva era incorreta… Os investigadores acreditam que, porque foi rejeitado, pode ter transformado a frustração em profundo ressentimento e ter se tornado o monstro que se tornou.”

Assim, Hitler começou a batalhar por uma grana pintando paisagens e copiando as artes dos cartões postais para vender nas ruas, principalmente a turistas. Ganhava mais desse modo do que como um empregado fixo de alguma empresa, estilo de vida que ele se recusava a aceitar como opção.

“Quando recebi minha rejeição, foi como se caísse um raio do céu sobre mim”, contou Hitler, anos depois.

O jovem Adolf continuaria a batalhar pelo seu sonho nos anos seguintes, pintando cada vez mais obras em um curto espaço de tempo. É o que veremos a seguir, na segunda parte da matéria...